terça-feira, 18 de junho de 2013

Imperativo



Esqueça, por favor, do meu amor!
Esqueça de mim, sem temor!
Trate-me como um desertor!
Por favor, deixe a chave
Dentro do vaso pintado,
E o quebra luz da sala ligado,
Saia de fininho, obrigado!
Não espie pela porta do banheiro,
Nem tente tocar em meus cabelos molhados,
Nem disfarçando, assim meio de lado...
Apenas bata a porta e vá, obrigado!
Sempre se é mais feliz sozinho
Do que em um mundo inventado!
Tuas palavras fúteis e frias
Nunca valeram nada
E, muito menos, tua falta de coragem!
Vá logo embora,
Se não quiseres ouvir mais nada...
Volta para tuas mentiras,
Eu ficarei quieta e calada...
Sobre tua alma vazia
Já não posso fazer mais nada!
Só faça o favor de deixar
A grana da obra inacabada
E não te pedirei mais nada.
Aproveita e apaga
Esta bagana do meu cigarro
Com teu sapato surrado,
Por que depois da tua última palavra
Já não sentirei mais nada
Vai e não diz mais nem um “ai...”
Saia da minha casa!

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Solidão

Estou só e sem ninguém.

Pela janela de minha prisão

Vejo o tempo passar.

Não canso de esperar

Um rosto conhecido,

Um olhar querido...

No entanto, sorrindo deixo

Que lágrimas se escondam

Dentro de minha alma.

Um soluço emudece minha garganta

Numa falsa calma

Sussurrando em meus ouvidos

A balada noturna dos desejos,

Numa canção de sonhos confusos.

A ilusão se desfez em pó...

A minha grande dor,

Entre tantos medos

É viver pra sempre tão só...



1986

Poema de abril

Agora que é abril
E o mar se ausentou,
Secou meu encanto,
E teu amor acabou...

Agora que é abril,
Segui a trilha
Do meu espanto
Por permitir este amor...

De tua fonte pensava
Jorrar esperança e acalanto.
Percebi tarde demais
Não era água, nem nada,
Era só pranto...

Agora que estou febril,
E de uma vez por todas
De ondas morro em mim... 
Morre minha carne
E em gestos cálidos feneço
Cantando como mórbida sereia
Entre as dores de abril...

2010

Minhas botas

Calço sempre um par de botas
E tenho uma alma desnuda
Trago certezas na fala
E verdades bem cruas

Tenho uma língua afiada
E palavrões que torturam,
Quem não me conhece pensa
Que tenho uma cabeça vazia...

Saio de casa apressada
Com minha bolsa
Sempre entreaberta.
Vivo no mundo da Lua,
Sonhando a cada dia
Em ser bem mais madura!

Assim, vou levando a vida...
Calçando botas coloridas!
Sei que muitos acham
Que sou uma “boca aberta”,
Mas, das minhas botas,
Limpo sempre minhas merdas...

2013

Sonho lindo

Sonhei um dia ser adorada
E de adoradores via-me cercada
Repleta de ternura e embalada
Vivia só de amores...

Neste cenário de loucuras
Nervosa, ria-me das dores...
Debochava da infelicidade
E, lentamente, caminhava entre flores!

Entre tantos amores e torturas
Chegaste assim de mansinho
Pegando-me pela mão
Foste me beijando devagarzinho
Beijos de amor infinito...

Aos poucos fui me acordando
E cheia de saudades, acabei chorando,
Por acabar assim sonho tão lindo!

1985

sábado, 18 de maio de 2013

Porta aberta



Bem-vindo de volta!
Sabia que irias voltar...
A porta sempre ficou aberta
Pra poderes entrar...

Entra, não repara.
Tá tudo fora do lugar.
Acabei de me acordar.
Foi mais uma noite em claro,
Sonhando em te encontrar...

Tá tudo meio pirado,
Meu coração, bagunçado...
Tenho tanta coisa pra te contar!

Fica sabendo, a casa é tua.
Aqui sempre foi teu lugar.
Te esperei por tanto tempo,
Fui aprendendo a te amar...

Vem, pode entrar...
Eu muito aprendi por aí
E sonhei e chorei e sofri...
Agora já posso te cuidar.
Entra e fecha a porta,
Só faltava tu chegar...


2010

Sonhar


Sonhos não são por acaso
Sempre é preciso criá-los!
Desafiar os atrasos,
Os reveses, os abalos...

Sonhos verdadeiros são raros
São como os casos de amor sem fim
Com final feliz e sem obstáculos afins...

Não quero mais omitir
E muito menos mentir!
Tá na cara! É tão fácil admitir...
Sonho com o amor verdadeiro...

Sonhar é uma arte,
Ter pesadelos faz parte!

2010

Ou me mata, ou me deixa viver

Ando meio cabisbaixa,
Mas sem medo de elevar o olhar.
Simplesmente sigo em frente,
Esperando o tempo passar.

Quem me vê de longe,
Não consegue ver meus dentes,
Pois aguardo, profundamente
Por algo que venha me alegrar...

Dizem por aí que ando meio ausente
E que vivo só pelo presente.
Ninguém vê o quanto dói
Esta dor tão transparente...

Hoje sou o que sobrou
De uma vida inconsequente
Que nem me mata,
Nem me deixa viver...

2001

Oásis


Contigo reparti
Meu arco íris,
Miragem refletida
De teu corpo,
Meu oásis...

Contigo reparti
O alucinante silêncio,
E dei luz à trama
De teu falso desejo

Contigo reparti
O líquido precioso
Sobre teu corpo
Repleto de anseio e gozo

Hipnotizei-me
Pelo calor da tua pele
E me perdi na noite fria
Desta desordenada geografia

Te amei, mas não te amo mais
Foste somente uma miragem
Que sob meus olhos
Se desfez na verdade...

2010

Mix



Batom na boca,
Comida na mesa,
Esmalte fresco,
Casa limpa.

Flores regadas,
Roupa lavada,
Salto alto,
E pé na estrada.

Toda curva é dor,
Todo amor, partida
O tempo é curto,
Mas não vacilo...

Beijo na boca,
Carteira vazia,
Feitiço na sala,
Sob a luz do dia.
Sou bruxa, sou fada,
Fingindo-me poetisa

Dona de mim,
Dona de tudo,
Flutuo no ar,
Mas acordar cedo,
Nem pensar!

O homem ao meu lado

O homem ao meu lado,
Anda armado,
Fardado,
Bem trajado...

O homem ao meu lado,
Ama a Pátria,
É obediente,
Obstinado...

O homem ao meu lado,
Comanda pelotões,
Dá ordens a soldados
E esbanja galões...

O homem que eu amo,
Anda ao meu lado,
Com muito cuidado,
E bem comportado...

2013

Meu amanhecer

Amanheço em mim, prisioneira
De teus olhos, neste azul sem fim.
Mergulhada em mim,

Amanheço só, por fim...
Por que histórias de amor
São tristes demais!
Falo isso pelo sabor das manhãs
Em que acordávamos nós,
Abraçados e felizes,
Amantes muito além de nós...
Aceitei esta paixão
O tanto que durou
Me tirando o pé do chão
Iluminando meus risos, em paz.
Lembrar de ti, meu amor,
É lembrar do que ficou para trás.
Linha tênue entre o céu e o mar,
Meu querido, histórias de amor
São lindas demais!

2009

Instintos



Uma alma, muitas vidas
Um olhar, algumas dicas
Muitos mistérios, uma mulher
Muitas faces, muitas fases
Muitos sonhos, poucos amores
Um corpo, muitas dores
Duas mãos, dez garras
Mil instintos em quatro patas...

2012

Essenciais bobagens




Que minha seriedade seja moldada
No cultivo de minhas bobagens
Sem elas não vivo, sem elas sou nada

Na incerteza de meus princípios...



Meu mundo parece irracional,
Pois insisto em viver de sentimentos

Só assim, meu caminho reafirmo
E sigo trilhando campos ensolarados...


Por onde andei, não levei nada comigo

Somente meus sapatos embarrados
Que há muito tempo já foram largados
Na soleira desta vida caótica...


Sigo meu caminho descalça

Rumando ao horizonte inevitável!
Há muito deixei para trás o ponto final
E sigo vivendo em reticências...

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Nau à deriva


AINDA ONTEM,
MEU MUNDO ERA PERFEITO!
TINHA TUDO O QUE AMAVA
BEM PERTO DO MEU OLHAR:
O MAR, O CÉU, O LUAR,
AS MADRUGADAS TRANQUILAS
E MINHA NAU A NAVEGAR
SEGUIA EM ÁGUAS CONHECIDAS!
MAS FOI NAQUELA NOITE,
COM QUARTO CRESCENTE NO LUAR
TE CONVIDEI PARA ENTRAR
A BORDO, NADA MAIS PARA PENSAR...
MAS PEÃO DE ESTRADA,
NÃO SABE NAVEGAR...
NOSSOS CORPOS SE PERDERAM
TRÊS DIAS EM ALTO MAR...
NA ALTA MADRUGADA
EM TEUS BRAÇOS DOMINADA
EM DESALINHO, ABATIDA
REENCONTREI-ME EM TEU OLHAR
QUANDO DEI POR MIM
ESTÁVAMOS EXAUSTOS À BEIRA MAR...
E A LUZ DA MANHÃ LHE DIZIA:
“DEVES TE RETIRAR...”
MINHA NAU SEGUE À DERIVA
MAS NÃO ESTOU PERDIDA
DESENCONTRADA, TALVEZ...
TENHO O LEME EM MINHAS MÃOS
SEGUIREI O RUMO DE MEU CORAÇÃO,
NO HORIZONTE, PARTIU MEU PEÃO,
E EU, À BEIRA MAR, AGUARDO
SEU RETORNO COM DEVOÇÃO!

2013

Completa-me!

Vamos dividir nossos desejos?
Eu vou te dar o que te falta
E tu me darás o que te sobra:
Te darei loucura, me darás razão...
De que serve tanta disciplina
Se em meus braços perdes a linha?
De que vale tanta loucura
Se, em ti procuro uma curva segura?
Despertaremos a inveja
E, sobre nós, lançarão
Olhares e injúrias...
Completamente diferentes,
Colorindo nossas vidas!
Tu me completas
Como o agridoce da vida!

2013

Altar

Olhos secos e contidos,
Janelas fechadas do espírito,
Oculta no altar um sonho
Do mar que no céu habita
Enquanto na terra,
Anjos e demônios rodeiam teu sorriso...

Morada bendita do pão e do vinho
Homem e mulher, mistério finito,
Olhos sem cores, amores, martírios...
Repouso de memórias, lágrimas caídas,
Morno e casto é meu exílio...

Minha chegada, tua partida
Iluminadas por alguma capilha
Frio olhar, sem piedade, sem vida
Em minhas mãos, alguma guarida
Triste altar de nossas vidas!
Abrigando uma paixão mal resolvida,
Luz e sombra de um eterno inferno no paraíso...


2007

A eles, o vento...


Meu coração é gigante no amor,
Mas silencioso como o vento,
Aos homens que nele orbitam,
Minha gratidão, infinitamente, habita!

Não aceito viver só.
Àqueles que vão me consentir:
Peço piedade aos pobres desvalidos!
Por eles, me divido, me multiplico,
E zelosa, me purifico, me santifico!

Corre o vento, passa a vida
Passam homens, gestos, guaritas...

2010